Na velocidade de um trem: Trança, o terceiro disco de Ava Rocha

Publicado em 28 ago 2018, 21:08

Por Bernardo Oliveira

Trança é uma trama de múltiplos fios, um enfeite dos cabelos, uma maneira especial de produzir o pão. Trança é também o título do terceiro disco da cantora carioca Ava Rocha, uma referência ao artista plástico Tunga, que nos deixou em 2016. Tunga assinou a capa do primeiro álbum de Ava — Diurno — antecipando o êxito de Ava Patrya Yndia Yracema (2015).

Tunga tomou a trança como motivo particular em seu trabalho, seja como uma metáfora do fluxo por onde escoam todas as coisas, seja como expressão do tempo que corre para todos os lados, arrastando olhares, visões, imagens, sensações, lutas e devaneios.

Trata-se de um trabalho costurado por forças múltiplas, que se conjugam para criar texturas percussivas exuberantes, sonoridades elaboradas, formadas por baixo, bateria, guitarra, percussões diversas (ilu, rumpi, cuíca, conga), rabeca, samplers e sintetizadores. O resultado, sonoramente diferente de seus discos anteriores, propõe outros ambientes musicais, relacionados aos novos mundos da Pangeia — do grego Pan ("todo") e Geia ( "terra").

A trança de Tunga serve de inspiração: trança de encontros, de sonoridades, cuidadosamente talhadas pela produção meticulosa de Eduardo Manso e Fabiano França e a direção musical partilhada entre Manso e Negro Leo.

Trança se caracteriza pelo equilíbrio entre o poder das canções, a mistura de estilos e a sonoridade ousada, experimental. Há no álbum um forte aspecto de comunhão em um mundo constituído pelas multiplicidades, a Pangeia, mas há também a potência individual, subjetiva, expressa por uma sequência de canções batizadas com nomes próprios: Lilith, Dorival, Joana Dark, Bárbara, Patrya, João Três Filhos, Assunção.

Trama de pessoas, criando conexões abundantes entre músicos de vários estados do Brasil. Artistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Pernambuco, Maceió, Goiânia, além de Thomas Rohrer, suíço radicado no País. Encontros entre outras forças que também já não estão entre nós, mas cuja presença essencial habita o disco: o saudoso poeta Ericson Pires (1972–2012) e D. Lúcia Rocha (1919–2014), avó de Ava. 

A presença feminina nas vozes de Juçara Marçal, Juliana Perdigão, Karina Buhr, Alessandra Leão, Bella e Linn da Quebrada. Na parte rítmica, particularmente pela bateria de Mariá Portugal, pela batucada da dupla Mbeji — Victoria dos Santos e Ariane Molina. E na composição, as canções de Iara Rennó, Tulipa Ruiz, Gabriela Carneiro da Cunha, a da própria Ava, que assina onze das dezenove faixas do álbum. 

Trança é dedicado também à Paula Maria Gaitán e a Uma Gaitán, mãe e filha. As canções em língua espanhola fazem parte de um processo de exaltação de sua nacionalidade colombiana, que, conjugada com a voz de Uma em Maré Erê, amplifica ainda mais o aspecto plural do disco, criando um portal transtemporal que abrange Colômbia, Maranhão, Ucrânia, Brasil, Rio, Bahia...

Uma forte característica do disco são os pontos percussivos, recriados, improvisados. Ava já vinha se lançando nessas experiências em shows, a meio palmo do delírio e da memória, recriando, a seu modo, efeitos rítmicos e poéticos característicos dos cantos para os orixás do Candomblé. Exemplos dessa inflexão são Delírio, Maré Erê, Febre (com destaque para a cuíca de Ariane Molina) e Manjar do Oriente.

A presença do rock'n'roll é marcante, mas um rock anômalo, filtrado por efeitos e concepções maliciosas: rock martelado no piano, à la Velvet Underground, em Singular; glitter rock com pegada Clube da Esquina em João Três Filhos — composição de Dinho Almeida, do Boogarins (em clara e inspirada alusão melódica à Maria Três Filhos, de Milton Nascimento); rock turbinado pela cuíca envenenada de Paulinho Bicolor na Anjo do Bem, de Negro Leo.

As canções românticas constituem um destaque do disco, talvez pelo não-alinhamento às expectativas mais comuns voltadas a esse tipo de canção. Fog, com seus sintetizadores à la Tangerine Dream, mas também Continente (de Marcos Campello), Canción para Usted e Frio (ambas assinadas por Ava).

Destacam-se também as texturas instrumentais abstratas e com forte carga emocional, como Pangeia, composição de Ava em homenagem a Tunga. Lilith, parceria de Ava com Tulipa e Gustavo Ruiz, líbelo feminista pop com suingue Jorge Benjor; e Joana Dark, tamborzão carioca com exortações canábico-feministas e participação de um time de cantoras representativo da música contemporânea brasileira: Linn da Quebrada, Victoria dos Santos, Alessandra Leão, Ariane Molina e Karina Buhr. 

Quatro momentos desafiam a criatividade dos críticos para rotular o trabalho: Periférica, repleta de síncopes inesperadas e compassos compostos, assinada por Ava e Bruno Di Lullo. Patrya, de Negro Leo, com arranjo que parece desacoplar a voz da instrumentação, criando uma prodigiosa sensação de instabilidade. Assumpção, parceria entre Ava e o poeta capixaba Tazio Zambi, em que o compasso produzido pelo violão de Kiko Dinucci e a bateria de Thomas Harres, acompanha o ritmo das palavras. E a sonoridade jazzística e complexa de Dorival, com uma diversidade de intervenções sonoras justapostas, produzindo uma sensação de instabilidade estável, análoga à intensidade mítica do vai-e-vem das ondas do mar. 

Ava chega ao seu décimo ano de carreira, com um disco-experiência de caráter coletivo, operando à semelhança da trama de todas as coisas concebida por Tunga. Contudo, há um elemento que se destaca durante toda a audição: a voz e a interpretação da cantora. Observa-se  que sua voz tem o poder para atravessar a instrumentação, deslocar-se com a velocidade de um trem, força plástica capaz de revirar territórios apaziguados e modular em timbres e inflexões sempre surpreendentes. Uma força avassaladora, pontiaguda, cortante, mas quente e amorosa, que domina todo o espaço-tempo do som à canção e além.

Trança segue enredando aspectos de uma realidade tomada pelo caos e pela guerra, mas também por visões do paraíso, da beleza, da resistência e do prazer. A trança nos leva para uma viagem sem volta, das grandes cidades às florestas exuberantes, degradadas. Do alto das árvores frondosas aos recônditos subterrâneos de onde se extraem minério e petróleo. Do fundo do mar onde coabitam lindas criaturas abissais e lixo produzido com a marca do progresso estúpido, da barbárie movida a gasolina e violência policial: o futuro-pretérito é, simultaneamente enchente e falta d'água, prótese e a cura de todos os males pela ciência, pela arte, pelo pensamento. Uma marca do tempo e do atemporal, marca de uma vida transbordante que inevitavelmente nos habita e que Ava Rocha materializa com suas tranças.