O Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha surgiu de um encontro de mulheres negras dessas regiões realizado em 25 de julho de 1992 na República Dominicana. Elas se reuniram para elaborar e discutir temas relacionadas ao racismo (preconceito contra negros, especialmente) e ao sexismo (preconceito contra mulheres), bem como à discriminação e ao impacto da desigualdade enfrentados especificamente por mulheres negras nesses territórios.
“A data é um convite à reflexão no âmbito político do movimento de mulheres negras na América Latina e Caribe e em alguns outros territórios que têm conexão com as políticas realizadas por e para mulheres negras", explica Danielle Almeida, especialista em Diversidade Étnico-racial e mestre em Ciências da Educação pela Universidad de Monterrey (México).
Em razão da data, o movimento de mulheres negras brasileiro realiza desde 2015 o #JulhoDasPretas em todo o país. Durante o mês inteiro acontecem atividades abertas para difundir as elaborações de mulheres negras com base no Bem Viver. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, por exemplo, ocorrem marchas estaduais para marcar a data.
Outra coisa bem importante de se registrar é que, aqui no Brasil, o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha é comemorado em conjunto com o Dia Nacional de Tereza de Benguela, uma líder quilombola de nosso país que viveu no século XVIII e lutou contra a escravidão e pela liberdade dos quilombos.
Mas precisamos de uma data específica para as mulheres negras?
Além de registrar em nosso calendário o marco histórico que ela representa, a data também combate o apagamento da vida e da luta de mulheres negras, principalmente se olharmos criticamente para a forma como a história – e o ensino de história – tem desconsiderado aspectos importantes da vida, dos desafios e das dificuldades de ser uma pessoa negra no Brasil, nos demais países da América Latina e no Caribe.
“Muita gente ainda não sabe que esta data existe. E ela tem se difundido graças ao ativismo, à integração ao calendário, aos movimentos culturais em torno desta agenda e também graças às parcelas da população que abrem espaço e lugar para celebrarmos e continuarmos colocando em pauta tudo o que compartilhamos, mas também aquilo que é específico da vivência da mulher negra nestes países, a nossa existência, né? Nos mais diferentes aspectos da vida”, diz Danielle Almeida.
A América Latina e o Caribe são regiões marcadas pela diversidade étnica, fruto dos processos de colonização, escravidão e imigração ao longo dos séculos. A multiculturalidade está presente nas diversas comunidades negras presentes em países como Brasil, Colômbia, Cuba, República Dominicana, Haiti, entre outros. Cada um tem sua própria história e dinâmica social, mas compartilha tanto a presença do racismo como algo estruturante, que impacta a vida da população negra, quanto o protagonismo das mulheres nas lutas por uma dinâmica social mais justa.
Durante muito tempo os padrões eurocêntricos, ou seja, vindos de países europeus, definiram o que é belo, o que é bonito e, consequentemente, o que é admirado e desejado – e isso acontece até hoje. Numa perspectiva histórica, o cabelo crespo, a pele escura e outros traços culturais de mulheres negras foram associados ao oposto disso tudo, o que gerou e continua gerando consequências negativas para a autoestima e também para a carreira dessas mulheres.
Diferentes movimentos de resgate e valorização da estética negra, impulsionados por uma crescente conscientização e mobilização da sociedade, têm sido fundamentais para transformar essa realidade. Mulheres negras têm se fortalecido e reafirmado sua identidade a partir de uma estética que valoriza o corpo e a pele que elas habitam, e isso pode e deve ser celebrado como resultado de sua movimentação política. E é exatamente essa movimentação política, que existe a partir do encontro e da solidariedade entre mulheres negras, que o 25 de julho representa.
Apesar dos avanços alcançados, as mulheres negras de toda a América Latina e do Caribe ainda enfrentam desafios cotidianos significativos. Sem exceção, em toda a região, as comunidades negras enfrentam dificuldades para acessar uma educação de qualidade, o que resulta em pouca representatividade e pluralidade nos mais diferentes espaços, principalmente no acadêmico e profissional.
No Brasil, por exemplo, a disparidade salarial é uma realidade
Outra questão alarmante é a violência contra a mulher negra, que sofre com altos índices de agressões físicas e psicológicas.
Adicionalmente, muitas mulheres negras enfrentam a superexploração em trabalhos domésticos e informais, vivendo em condições precárias e sem acesso aos direitos básicos.
Nesse contexto, é essencial que, enquanto parte da sociedade e também corresponsáveis no desenvolvimento de uma sociedade mais justa, estejamos atentos e dispostos a ecoar essa luta, somando nossos esforços e colaborando no que estiver ao nosso alcance para que as reivindicações dos movimentos de mulheres negras sejam escutadas atendidas.
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